Os restaurantes da terceira base.

Em seu início, o Starbuck procurava se colocar como a “terceira base” mais importante no dia a dia de seus clientes, um lugar tranquilo entre os outros dois, a casa e o trabalho, onde se poderia relaxar e tomar ao menos um café sossegado. Em muitos locais, o Starbuck cumpriu este seu propósito e teve um merecido reconhecimento. Começou místico, foi mudando aos poucos, mas misteriosamente ainda conserva a figura de Iemanjá em seu logo, no mundo todo.

Essa “terceira base” acolheu frequentadores felizes, que batiam o ponto e se reenergizavam algumas vezes por dia, pelo menos até a pandemia chegar, quando os hábitos diários de muitos deles sutilmente mudaram. Os cafés lentamente se instalaram nas casas e nas empresas e a imensa pintura, rica em detalhes, exclusiva de cada loja para longas contemplações de seus clientes, foi aos poucos perdendo a força para uma epidemia que estava à espreita lá fora.

Os trabalhos criativos, que exigem silêncio e concentração, de certa forma podem ser feitos em casa. Já os grupos de trabalho de coordenação, comunicação ou vendas ficam melhor nas instalações das empresas. Em ambas as opções, os momentos de café ganharam locais mais dedicados, com cafeteiras de qualidade, geladeiras com águas, sucos e gelatinas naturais com frutas. Ambientes próprios com poltronas macias também surgiram. Os contemplativos momentos continuam, só que desta vez para conferir as mensagens do celular.

Havendo conexão, pode-se trabalhar e se relacionar na empresa, em casa ou num café. A Internet em suas redes e aplicativos fundiu as funções das três bases e de quebra traz o mundo inteiro para nos distrair, a qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, mesmo com os hábitos e preferências mudando a cada minuto. Seja lá aonde for, um lugar qualquer só se torna um bom lugar quando tem conexão. E quanto mais larga a banda melhor é o lugar.

Nas atividades profissionais tudo tem que ser rápido, para ontem, seja de criação, como de coordenação. Todas essas facilidades da net que nos confortam por um lado nos deixam mais tensos pelo outro. A urgência, quase sempre sem necessidade, tornou-se a essência das relações profissionais. A qualidade dos produtos ou serviços está cada vez mais difícil de ser apreciada, andando a reboque de uma burocracia automática, um atraso de vida que se faz importante na medida em que incomoda sem contribuir.

Sendo ao mesmo tempo pública e privada a Internet tomou o centro de todos os lugares, com sua conexão instantânea e flashes de humor. Acabaram-se os magazines nas salas de espera dos médicos e dentistas. Instalações físicas serão necessárias somente de cama, mesa e banho e se possível com uma grande tela na parede para saber a quantas anda o mundo. A nova perspectiva chegou e até os restaurantes já repensam suas áreas, produtos e relações.

A noção de territorialidade começou a mudar e até nas fronteiras dos países quase tudo já entra e sai facilmente. A dificuldade é com pessoas, como nos portões dos mais chiques condomínios da cidade. Os restaurantes do futuro precisarão de 7 cuidados para existir: um bom local com tempo e segurança para viver, alimentos honestos, água limpa, ar puro e atenção no atendimento. Para nós, que somos humanos e quânticos, tudo isso é maravilhoso e nada disso vem pela Internet. O Green Kitchen vem, mas isso é uma outra história.

Na grande aventura do futuro, naturalmente desconhecemos aonde vamos realmente parar ou as surpresas que teremos pelo caminho. O que importa é a gente se preparar para quando achar a nossa “terceira base”, sentir um bom espaço, um saboroso café, uma bebida gelada, um salgado, um sanduíche, um prato, um sorvete e alguém para conversar bem devagar, porque em qualquer lugar, a maior de todas as atrações ainda somos nós mesmos.

joseaurelioclaro@gmail.com 110225

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